Franklin Cascaes
Historiador
Franklin
Cascaes nasceu a 16 de outubro de 1908 em Itaguaçu, município
de São José (SC). Faleceu a 15 de março de
1983, em Florianópolis. No decorrer de sua vida expressou
em forma de arte os estudos que realizou sobre a cultura açoriana
na Ilha de Santa Catarina, seus aspetos folclóricos, culturais,
suas lendas e superstições como se fora um ritual
abstrato que atingisse a estrutura vital do mito. E fê-lo
soberbamente, já que da pesca da tainha a cerâmica,dos
cantos aos engenhos de farinha e açúcar, aprofundou
sobretudo o estudo que trata das lendas através de um desenho
fantástico, cujo sentido mítico dimensiona uma criatividade
genuína e profunda. Para Cascaes mito é a possibilidade
de primordial, a realidade inteligível que estabelece de
modo único, numa pré-figuração do
mistério que antecede a revelação. A força
criativa de Cascaes encontra-se, ainda, na capacidade de sua imaginação,
a ponto de acrescentar elementos atuais às lendas da Ilha
de Santa Catarina.
Tinha uma personalidade muito forte e curiosa e isto pode ser
percebido no seguinte agradecimento: "aos que me contaram
estórias e histórias; aos que me acolheram com o
valor cultural do calor humano; aos que me hostilizaram, a todos
enfim o meu obrigado".
Conto de Cascaes: Vassoura Bruxólica
"É, neste mundo de Deus, há muitos mistérios
e esta gente simples aqui da Ilha vive estas coisas quase como
uma realidade. Meus lobisomens, bruxas, demônios e boitatás
existem". Sempre foi crença do povo hospitaleiro desta
Ilha dos famosos bois de mamão que, na Sexta-Feira-Santa,
não se deve tomar instrumentos de trabalho para usa-los,
seja qual finalidade for. É também costume tradicional
deste povo, descendentes de colonos açorianos, que, na
Sexta-Feira-Santa, a partir de zero hora, devem banhar-se nas
ondas do mar, levando consigo animais domésticos, para
purificarem-se e protegerem-se de todos os males do corpo físico
e espiritual. As águas colhidas nesta hora servem para
todo o tipo de cura. É a fé, longínqua dos
tempos, aliada a superstição, ao medo e ao amor
pela conservação do corpo físico, na cura
dos males que atacam o homem em franca vivencia espiritual e física
com o seu Deus. As forcas atuantes de praticas religiosas freiam
os instintos animalescos do homem, encaminhando-o, espiritualmente,
para viver com bons modos junto com o seu Deus, com a cultura,
na sociedade e conseqüentemente com o seu próximo.
Entrementes, sempre aparecem nos meandros desses cenários
fantásticos, e outros moderados, pessoas que se arrojam
contra os poderes divinos, maltratando esses conjuntos de sociedades
freadoras, veículos insubstituíveis de abrandamento
de sofrimentos que martirizam e acoitam a criatura humana. Um
caso de desrespeito espiritual aconteceu ha muitos anos passados,
lá pras bandas do sul da Ilha de Santa Catarina. A Maria
Vivina, moradora da praia dos Naufragados, fez uma aposta com
a Carrica, de que, na Sexta-Feira-Santa daquele ano, ela tomaria
uma vassoura e com a mesma, varreria o quintal de sua casa e,certeza
tinha, nada lhe aconteceria de extraordinário. Apostaram
um par de tamancos contra uma botina. E firmaram a promessa da
aposta, casando-a. Quando a Vivina deu a primeira varredela, a
vassoura soltou-se de suas mãos qui nem um relâmpago,
metamorfoseou-se em bruxa, ganhou altura sobre o morro do Ribeirão
da Ilha e desapareceu, num repente, no espaço sideral das
alturas incomensuráveis da quimera. A Maria Vivina caiu
de joelhos no terreiro, rezou e pediu perdão aos céus
pelo ato impensado que havia cometido contra as ordens divinas,
chorando copiosamente. A Carrica abraçou-se com ela e ambas
choraram e sentiram o amargo do néctar da desobediência
humana. Nenhuma das duas era bruxa, porque a vassoura, que e um
instrumento de montaria de bruxas, foi embora, viajar pelo espaço
sideral, sozinha. Oh! Minha querida Ilha de Santa Catarina de
Alexandria, és a graciosa sereia que repousa sobre brancas
areias de comoros errantes, sambaquis seculares, banhada pelas
ondas acasteladas do oceano, perfumada pela brisa acariciante
dos ventos e enxuta com as toalhas felpudas dos raios solares
que beijam calorosamente seu corpo mitológico.
Em 1931 apresentou seu primeiro seu trabalho artístico
e cultural, enfatizando sempre o folclore açoriano. A partir
de 1974 que sua obra começa a ser divulgada.
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