A corrida para evitar a extinção do atum-azul,
um dos peixes mais valorizados do mundo
José Alberto Gonçalves
Revista Exame – 05/05/2010
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O
Japão é tradicionalmente avesso a qualquer regulação
mundial da pesca, como mostra a defesa velada que o país
faz há anos da polêmica caça às baleias.
Esse posicionamento é tão enraizado que o governo
comanda um poderoso lobby nos organismos internacionais para barrar
a aprovação de medidas restritivas a essa atividade
econômica. Hoje, a atenção dos japoneses está
especialmente voltada para o atum-azul, um gigante dos mares que
pode medir até 4 metros de comprimento e pesar cerca de 700
quilos. Sua barriga provê uma carne gordurosa e suculenta,
o toro, uma das maiores iguarias da culinária japonesa. Um
único sushi de atum-azul pode custar mais de 20 dólares
e um exemplar do peixe, nos leilões realizados no mercado
Tsukiji, em Tóquio, chega a ser vendido por mais de 50 000
dólares. O problema é que a pesca ilegal, o desrespeito
às cotas de captura e o crescente consumo de toro, sobretudo
no Japão, mas também na Europa e nos Estados Unidos,
levaram os cardumes de atum-azul ao colapso. Segundo a Comissão
Internacional para a Conservação do Atum no Atlântico
(Iccat, na sigla em inglês), os estoques do peixe foram reduzidos
a menos de 15% de seus níveis históricos. O governo
e a maioria dos japoneses, porém, parecem mais preocupados
com as questões gastronômicas do que com as ambientais.
Figuras ilustres, como o chef Nobuyuki Matsuhisa, dono de uma dezena
de restaurantes nos Estados Unidos, continuam servindo o peixe,
a despeito de protestos. Ainda que as perspectivas sejam sombrias,
há uma esperança para o atum-azul, e ela também
está no Japão, só que entre as empresas.
VISTO PELOS AMBIENTALISTAS como um dos principais
vilões do setor de pesca, o conglomerado nipônico Mitsubishi,
que responde por 40% de toda a importação que o Japão
faz do atum-azul do Atlântico, resolveu mudar sua política.
Para mostrar que está preocupado com a sobrevivência
da espécie, o grupo diz ter reduzido significativamente as
compras de atum-azul do Mediterrâneo. Além disso, deixou
de adquirir por completo o peixe da região das ilhas Baleares,
na costa orien tal da Espanha, importante área de reprodução
da espécie. O grupo Mitsubishi se manifestou a favor do atum-azul
pela primeira vez em setembro de 2009, quando defendeu publicamente
uma diminuição na cota global de captura e a decretação
de uma moratória para sua pesca. Desde então, ganhou
alguma simpatia do Greenpeace, uma das ONGs mais aguerridas na defesa
da espécie. "Quando vemos uma trading tomar medidas
voluntárias para reduzir seu impacto, é fácil
entender que algo está mesmo errado com os estoques oceânicos
do peixe", diz Willie Mackenzie, responsável pela campanha
de oceanos do Greenpeace. Isso não significa que a entidade
tenha baixado a guarda em relação ao grupo. Ao contrário.
"Estamos ávidos por saber como a companhia agirá
na estação de pesca de 2010, que começará
em breve", afirma Mackenzie.
Outras empresas já trilharam um caminho ainda mais radical
que o escolhido pela Mitsubishi. Desde 2007, as redes de varejo
Auchan e Carrefour, da França, a Coop, líder do setor
na Itália, e o grupo ICA, da Noruega, deixaram de comercializar
o atum-azul do Mediterrâneo em resposta a uma barulhenta campanha
do WWF e do Greenpeace. Essas ONGs defendem a proposta de uma moratória,
ou seja, que o consumo de atum-azul seja interrompido até
que os estoques do peixe se recuperem. Segundo a Organização
das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação
(FAO), a pesca legal e a clandestina de atum-azul no Atlântico
oriental e no mar Mediterrâneo chegaram a 61 000 toneladas
em 2007. Apesar disso, na conferência da Convenção
sobre o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas
de Extinção, realizada em março em Doha, a
proposta de moratória no comércio internacional do
atum-azul do Atlân tico, formulada por Mônaco, com apoio
dos Estados Unidos, foi recusada.
De qualquer modo, o barulho em torno da moratória serviu
para mexer com o brio da Iccat, que perdeu credibilidade nos últimos
anos ao definir cotas de pesca muito mais elevadas que as recomendadas
por seus próprios pesquisadores. Em novembro, em Recife,
onde realizou sua reunião anual, a entidade finalmente resolveu
seguir a indicação do comitê científico,
definindo em 13 500 toneladas a cota global de pesca do atum-azul
do Atlân tico oriental e do Mediterrâneo. "O mercado
está mudando, e as empresas que não assegurarem a
sustentabilidade de suas pescarias nem respeitarem acordos internacionais
e legislações nacionais perderão mercado para
concorrentes mais conscientes", diz o brasileiro Fabio Hazin,
atual presidente da Iccat. Ao que parece, algumas empresas começaram
a se mexer nessa direção. Resta saber se no ritmo
necessário para garantir que o sushi de atum-azul possa continuar
a ser degustado no futuro.
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