Organismos aquáticos - Qualidade ambiental & Alimentação
valor calórico, minerais, nutrientes, lipídios, ác. graxos (ômegas), carboidratos, proteínas, vitaminas, off flavour e poluição
Helcias Bernardo de Pádua - SP

A parte da química que estuda os compostos do elemento carbono é chamada de "química orgânica ou dos composto do carbono" e nela se encontra a parte que estuda os processos químicos realizados nos organismos vivos chamada de "bioquímica" que para alguns é ramo independente, e a que estuda a melhor maneira de se obter e de se consumir "alimento" é chamada de "nutrição".

O alimento constitui 60 a 80% do custo de qualquer criação e que atualmente só se consegue ter uma relação vitoriosa com o custo-produção-qualidade-benefício, se estiver apto a interpretar ou pelo menos conhecer os conceitos alimentares.

Para a aqüicultura, isso deve ser visto e obrigatoriamente seguido desde a simples composição da ração oferecida aos organismos aquáticos criados, das várias substâncias utilizadas nos vários processos e etapas como no monitoramento e tratamento das águas, da aplicação de substâncias ou de hormônios naturais ou não, dos vários processos metabólicos e fisiológicos dos organismos durante o seu desenvolvimento e da preocupação para obtenção de uma melhor qualidade no seu pescado; - lembrar que carne saudável, sem gosto, sem ranço, sem gordura, representa ganho maior na venda e/ou melhor aceitação pelo consumidor.

Atualmente, a ênfase é dada muito mais para formulação da "ração de custo mais baixo", visando otimizar monetariamente a produção aqüícola, porém nem sempre preocupada com os "níveis de poluentes", esses gerados pelos compostos utilizados no alimento, em si.

Mas, ter-se também formulações "menos poluentes" que minimizem o impacto ambiental, chamadas modernamente de "rações favoráveis" ou "de mais baixa poluição" já preocupa os conscientes fabricantes e aqüicultores que procuram otimizar cada vez mais o quarteto: aumento da produção/qualidade da água/qualidade do pescado/impacto ambiental".

Esse sim é o novo desafio, caso contrário as margens de lucro e o crescimento da atividade serão reduzidos pelo aumento dos custos impostos pelas ações governamentais e ambientalistas, visando a preservação e/ou o uso adequado, (sustentável) dos recursos naturais.

Preocupar-se em relação à prevenção e não apenas com os possíveis tratamentos dos efluentes gerados na aqüicultura, deve ser a meta a ser conseguida, como otimizando as características físicas do sistema, preocupando-se com a sua manutenção, disponibilizando os equipamentos e dos recursos físicos, aplicando a exata ou melhor densidade dos indivíduos criados, melhorando a composição e estratégias de manejo da ração ou alimento e tendo o conhecimento dos fatores bióticos e abióticos que compõem todo o conjunto.

Sabe-se que, a interação dos processos físicos, químicos e biológicos oriundos das atividades aqüicolas ocorre totalmente no sistema, ou seja, água/sedimento/organismo, o que aponta a possibilidade de um maior índice de produção de poluição num mesmo local, quando comparado com uma criação de animais terrestres, onde os seus dejetos podem ser recuperados a seco e posteriormente degradados pelo solo.

Novas formulações da ração já permitem limitar os dejetos de certos poluentes, seja pela melhoria na digestibilidade das matérias primas, seja por delegar aos lipídeos, funções antes desempenhadas pelas proteínas. Testes realizados apontam para os alimentos considerados de "alta digestibilidade", um fator de dejetos inferior a 30% em amônia e de 40% em MES (matérias em suspensão), quando comparado ao alimento normal.

Então vejamos!

Os peixes são animais de sangue frio e os que vivem em águas frias, necessitam de mais fontes energéticas nos seus alimentos, indo busca-las nos carboidratos e lipídeos, sendo utilizados no seu total metabolismo e movimentos naturais. Os peixes criados em águas naturais com fluxo contínuo e contrário a sua natação e com alimento balanceado naturalmente ou não, apresentam carne de melhor sabor.

Já os peixes de águas mais quentes, (tropicais), mais calmas, caso não tenham necessidade através da sua fisiologia, ou através da migração alimentar e reprodutiva, apresentam maior capacidade de armazenar lipídeos (gorduras) e carboidratos, como alguns peixes de couro (ambientes lenticos) e mesmo alguns de escamas, p. ex. os pacus. Peixes de criação por obterem mais facilmente seus alimentos e não necessitarem percorrer grandes distâncias quando nos períodos de alimentação (lar de alimentação) e reprodução (lar de reprodução), tem afinidade maior substâncias inadequadas, perdendo em qualidade organoléptica da carne ou seja nas propriedades conferidas pelo sabor/gosto e odor.

- Peixes de criação quando não manejados adequadamente, não alimentados com ração balanceada, comem muito, engordam bastante e perdem assim o valor comercial quando analisado pelo lado do sabor e massa adiposa, sem contar o lado da perda pelo criador na relação ou taxa de conversão, (alimento x crescimento) e do seu maior custo durante o tempo que esteja sendo mantido no tanque.
- Peixes de águas orgânicas, embora tenham maior disponibilidade de alimento natural como fito e zooplancton, etc., também estão mais em contato com outros microrganismos anaeróbios e/ou facultativos, com certeza causadores de infecções e infestações, além de estarem mais susceptíveis à alterações físicas e químicas da qualidade das águas, levando-os até a morte.
- Peixes de águas mais bicarbonatadas, quando abatidos, tendem a apresentar melhor sabor e maior maciez e extensão muscular, (tônus), em relação aos de águas mais ácidas ou orgânicas.
- O pH muscular pouco mais baixo do peixe pós mortis, (inferior a 6,8 na parte externa e menor de 6,5 na parte interna), favorece a presença de substâncias, como a "actomiosina", tornando-o inicialmente mais enrijecido ou dando uma sensação de "tônus muscular maior", perdendo sua maciez, porem evitando as atividades microbianas e enzimáticas, retardando as ações decompositoras. Lembramos também que em pH muscular mais elevado, mais susceptível será à deterioração enzimática e microbiana.
- A presença maior de actinomicetos, de algas azuis/cianofícias, diatomáceas e mesmo de algas verdes na água, induz a presença de substâncias de gosto e odor diferentes, (off flavour), que podem ser absorvidas e mantidas no músculo dos peixes, necessitando que os mesmos passem por depuração, sem alimentação, em água corrente, limpa e oxigenada, por vários dias, antes do abate, porém perdendo peso; - peixes mais gordos retém mais sabor e odor indesejável.
- Problemas de odor e de sabor que ocorrem após o abate são resultantes da oxidação de gorduras ou ação de microrganismos inadequados, que se desenvolvem em função do manejo e da estocagem inadequada ou prolongada do pescado; - sabor e odor em peixes cultivados indica má qualidade da água e péssimo manejo, depreciando o produto consideravelmente quando da comercialização.
- Regiões de clima mais quente ou com épocas de maior incidência solar, favorecem a atividade algal e microbial nos tanques de criação, ocasionando a ocorrência de gostos e odores mais intensos na musculatura de peixes (off flavour *); nessas épocas um controle maior no arraçoamento e fluxo das águas se faz necessário.

(*) aqui, não relacionamos apenas a ocorrência direta do sabor/odor de "terra/mofo" com o termo "off flavour", situação ocasionada por um grupo diverso de algas desde as azuis, verdes, diatomáceas e cloroflagelados; outros (inúmeros) sabores (gosto) e diversos odores (aroma) devem ser esperados quando da ocorrência de absorção e retenção pelos organismos aquáticos, de certas substâncias adversas que prejudicam a qualidade sensorial (organoléptica) do pescado.

Como se sabe, os fatores ambientais como fluxo e qualidade das águas, temperatura e salinidade, (fatores físicos e químicos) estabelecem as necessidades gerais dos organismos aquáticos, como as necessidades vitamínicas, protéicas, calóricas e lipídicas, essas últimas p.ex. dos ácidos graxos, que devem compor o alimento disponível ou da ração a ser oferecida.

Como alimento, é o peixe que se apresenta com cerca de 70% de ácidos graxos insaturados e que destes seus cerca de 20% são da "série ômega 3, b, etc.", e que por conter tais ligações ômega 3 (w3), atuam nos processos de controle do colesterol, além do baixo teor do mesmo colesterol, ações estas não encontradas em nenhum outro alimento de origem animal ou vegetal. Também, o peixe, contêm todos os aminoácidos essenciais, alta digestibilidade, devido ao alto teor de lisina, aminoácido este pouco presente na dieta geral do povo brasileiro.

Os ácidos graxos polinsaturados-PUFA (poli unsaturated fatty acids) devem ser tidos como importante "valor agregado" nas criações de peixes, quando componentes da dieta alimentar/ração, etc., fornecida aos mesmos, pois aumentam assim o valor nutricional e biológico em relação aos peixes capturados (água doce e mar).

(*) A presença equilibrada dos 3 ácidos graxos essenciais, os ômegas (w3, w6 e w9) , nos óleos de peixes marinhos, esta sendo modernamente relacionada na proteção contra doenças cardiovasculares, com redução dos níveis séricos de colesterol, aumento da higidez da pele, diminuição da perda de água (aumento da umidade na pele). Os EPA-eicosapentaenoico e DHA-docosahexaenoico e outros da série n-3 (ômegas) atuam favoravelmente nos sintomas de artrite. Quando disponibilizados (ác. graxos) na fase pré natal e na primeira infância, irão prevenir o aparecimento de esclerose múltipla, futuramente. O autor chega a agradecer os seus queridos pais que o obrigava, quando criança, a tomar "óleo de fígado de bacalhau", quase que diariamente, na época de preço mais baixo, portanto acessível a camada mais humilde, mesmo contra a vontade e sentindo um odor e sabor não muito agradável..

Certas vitaminas têm nos peixes fonte de encontro ou obtenção, em especial as lipossolúveis, (solúveis lipídios e extraíveis por solventes orgânicos), e as do complexo B (vitaminas hidrossolúveis, ou seja, solúveis em água); - a Vitamina B6-piridoxina (hidrossolúveis), auxilia na oxidação dos alimentos e mantém a pele saudável, prevenindo de doenças, porém na falta ocasiona distúrbios nervosos, apatia e inércia. Outra vitamina encontrada no peixe (óleo de fígado de bacalhau) é a Vitamina D (lipossolúvel), atuante no metabolismo do cálcio e do fósforo, prevenindo o raquitismo e artrite, como mantendo os dentes e ossos em bom estado.

Dos produtos animais frescos, é o peixe o de menor valor calórico (82,9%), vencido apenas pelo leite pasteurizado (74,2%) e pelo leite materno (66,0%). Por outro lado, a carne de frango apresenta menos água com 76,5%, (contra 81,5% dos peixes), mais proteínas com 19,7%, (contra 16,0% dos peixes), mais lipídios ocupando 3,1%, (2,1% nos peixes), empatando com 0,0% em açucares, porém retendo 106,7 kcal de valor calórico, contra 82,9% nos peixes frescos. O valor biológico-vb da carne de peixe (93) só perde para o ovo que é de 101.

- (*) valor calórico = (unidade de medida), quantidade de energia necessária para elevar a temperatura de 1 grama de água em 1 grau centígrado, (1 kcal corresponde a 1000 calorias); - ocorre uma razão indireta entre a quantidade de água e direta com a quantidade de lipídios e proteínas com relação ao valor calórico dos alimentos de origem animal, numa proporção diferenciada para cada tipo de alimento; - e.t.: na composição do azeite de olivas e do óleo de algodão, o valor calórico é de 900 kcal, tendo 0,0% de água e 100% de lipídios. Nos chamados frutos do mar tem-se 87,0% de valor calórico e gordura igual a 0,72 %.

Atenção: a quantidade de proteína animal produzida na criação de peixes em açude ou tanques, é cinco vezes maior que a proteína vegetal produzida numa mesma extensão de área cultivada na agricultura.

# Infelizmente, o piscicultor/aqüicultor desatento, despreocupado ou desavisado que por ventura esteja ainda lendo este artigo, poderá pensar...

O que tudo isso tem a ver com a minha criação de peixe, rã ou camarão? O que me interessa é ter o peixe, o camarão, a rã em grande quantidade para vender e quanto maior melhor..., assim, ganho no valor e em peso. Não quero ser químico, biólogo ou ambientalista. Sou do campo, só crio, engordo, vendo e pronto.

Pois é..., ledo engano.

Portanto, insistimos em apresentar no decorrer desta série de artigos, alguns conceitos e algumas aplicações, e com certeza verás que muitas dúvidas serão esclarecidas e informações acrescentadas para um melhor desenvolvimento da aqüicultura, como um todo, por exemplo:

- nos seres vivos, (peixes, plantas, etc.), existem diversos tipos de substâncias que, apesar de não possuírem carbono, são componentes fundamentais da matéria viva, sendo chamados por isso de substâncias ou compostos inorgânicos, (numa célula viva tem-se compostos inorgânicos e orgânicos);
- como inorgânicos temos a água(*) numa proporção de 85% e mais outros inúmeros compostos inorgânicos, em torno de 1,5%;
- como compostos orgânicos temos distribuídos, cerca de: proteínas = 10%; lipídios = 2%; DNA (ác. desoxirribonucléico) = 0,4%; RNA (ác. ribonucléico) = 0,7%; outros compostos orgânicos = 0,4%;
- o que determina a qualidade do produto orgânico obtido é a proximidade à esses números, como equilíbrio ideal.
(*)Obs.:
- considera-se como "água potável" aquela que preferencialmente contenha, entre outras variáveis, de 60 a 350mg/l de minerais totais;

- a água-H2O é um composto vital à vida, não sendo considerada propriamente um nutriente mas está presente nos alimentos e aparecendo em alta porcentagem em todos os tipos de matéria viva, sendo que alguns tecidos possuem menos água que outros, assim, o tecido ósseo é constituído de 33% de água, já o tecido muscular apresenta 85%;

- a água de bebida e os alimentos contêm, praticamente, todos os elementos minerais conhecidos, mas em quantidades e sob formas variáveis; - certos minerais estão presentes sob a forma de traços, os oligoelementos traços, ou sob forma mal definida e em algumas vezes em estado livre., outros ainda existem em quantidades mais significativas, em estado sólido cristalizado e não ionizado (os minerais no esqueleto e dentes)
* Os compostos presentes nos organismos, em geral, são constituídos de moléculas, que por sua vez são formadas por átomos de elementos diversos, como p. ex.:

¨ Hidrogênio-H, constituinte de todas as moléculas orgânicas, fazendo parte também de outras moléculas inorgânicas como a água , da qual a célula tanto necessita.
¨ Oxigênio-O, também presente na maioria das moléculas orgânicas e de inorgânicas, como a água.
¨ Carbono-C , fundamental em todas as moléculas orgânicas, formando a estrutura básica de todas as moléculas componentes do material celular.
¨ Nitrogênio-N, componente importante de certos tipos de moléculas orgânicas, como nas proteínas e nos ácidos nucleícos e coenzimas, sendo esta a principal função fisiológica do nitrogênio na formação dessas substâncias; sem o nitrogênio, não haveria formação das paredes celulares e por tanto não existiriam os organismos.
¨ Fósforo-P, constituinte dos ácidos nucleícos (DNA-RNA); pode-se encontra-lo associado a alguns lipídios importantes, (fosfolipídios), sendo o principal responsável por reações energéticas e armazenadoras de energia no organismo; o fósforo tem importância como constituinte dos ácidos nucleicos e coenzimas e na fosforização oxidativa do ADP (adenozina difosfato) e ATP (adenozina trifosfato).
¨ Enxofre-S, constituinte das proteínas, estando presente em alguns aminoácidos como a cisteína, por exemplo.
¨ Potássio-K; sódio-Na; magnésio-Mg; cálcio-Ca; manganês-Mn; zinco-Zn; Ferro.Fe; entre tantos outros minerais, (cobalto-Co, molibdênio-Md,, cobre-Cu, níquel-Ni, selênio-Se; Iodo-I; bário-Ba; bóro-B), são importantes por auxiliarem reações vitais nos seres vivos.

*Sabe-se que os organismos aquáticos dependem do ambiente para obtenção dos elementos "essências", mas também estão expostos aos considerados "não essenciais", por isso, o mesmo deverá oferecer favorável estabilidade, embora sofra interferências devido a sua própria cinética, ou até por ações tidas "*antropúrgicas". Não aplicamos aqui o termo "antropogênico", por este estar etimológicamente associado ao estudo da origem do homem e não às *alterações ocasionadas pelo homem.

Elementos "essências" são aqueles que sem os quais não há desenvolvimento normal. Eles são divididos em macronutrientes e micronutrientes, podendo estar presentes na água, no alimento ou no solo, em maior ou menor quantidade. No solo, não se encontram em estado puro, mas sim combinados como sais mais ou menos complexos.

Os macronutrientes são: o nitrogênio, o potássio, o cálcio, o fósforo, o enxofre e o magnésio, este último, com influência na síntese de clorofila. O sódio também é considerado como macronutriente(macroelemento). O carbono, o oxigênio e o hidrogênio são tão importantes como o nitrogênio e fósforo, porém não são considerados verdadeiros nutrientes, pois os compostos orgânicos e o oxigênio dissolvido normalmente cobrem estas demandas. Alguns autores enquadram o elemento cloro como macronutriente (macroelemento).
Já os micronutrientes, tidos como elementos traços, são: o cloro, o bório, o bário, o manganês, o cobalto, o zinco, o cobre, o níquel, o ferro, o flúor, o selênio, o iodo, e o molibdênio, sendo este de importante presença quando das reações celulares. Também são considerados micronutrientes (microelementos) os elementos: cromo, estanho, vanádio, silício.
Obs.: aqui, não entramos em discussões de classificação, entre alguns autores.

# As substâncias alimentares podem ser divididas em dois grandes grupos: nutrientes orgânicos e nutrientes inorgânicos.

Os nutrientes orgânicos são obtidos de organismos vivos (cereais, carnes, verduras, etc.) e suas principais substâncias orgânicas nutritivas presentes nesses alimentos são os carboidratos (açucares e amido), as proteínas e as gorduras.

Os nutrientes inorgânicos não são oriundos dos seres vivos, a princípio, mas das rochas, do solo e dos mares, sendo conhecidos como sais minerais.

Os nutrientes minerais (sais minerais) são compostos que contêm cálcio, fósforo, ferro, enxofre e iodo, entre outros alimentos químicos, sendo necessários em inúmeras reações vitais e também como matéria estrutural, como é o caso do cálcio, que constitui ossos e dentes, carapaças, por exemplo.


VOLTAR