Peixe para o bem do cérebro
por Paula Desgualdo | design Glenda Capdeville
|
Tem
gente que não pode ouvir falar em óleo de fígado
de bacalhau. Tudo bem que na vida existem coisas, digamos, mais
saborosas. Mas, na maioria dos casos, a má impressão
se deve a um trauma de infância, já que mães
e avós obrigavam sua prole a mandar goela abaixo umas tantas
colheradas do tal suplemento. A justificativa era vaga: “Faz
bem”. E engula mais esta: elas estavam certas. Especialmente
no que diz respeito à inteligência. Se não conheciam
direito esse benefício, hoje a ciência explica.
Claro, você não precisa recorrer ao
óleo. Desde que acrescente algumas porções
de peixe à sua dieta, está tudo certo. A medida é
essencial para manter nada menos do que o cérebro em forma.
Mas, tanto no óleo de fígado de bacalhau quanto em
um sashimi de salmão ou numa sardinha bem temperada, os autores
da proeza na massa cinzenta são os ácidos graxos ômega-3,
encontrados principalmente em espécies de águas frias.
“Esse tipo de gordura influencia o desempenho cognitivo”,
aponta a pesquisadora Maria Aberg, da Universidade de Gotemburgo,
na Suécia.
Ela acaba de realizar um estudo com 4 mil rapazes
e constatou o seguinte: aqueles que, numa entrevista, afirmaram
que comeram bastante peixe no dia-a-dia quando tinham 15 anos se
deram muito melhor em testes de lógica e questões
de matemática quando completaram 18. O segredo do sucesso?
“O ômega-3 estimula a produção de novos
neurônios, participa do desenvolvimento e da manutenção
do sistema nervoso e serve de matéria-prima para a produção
de substâncias protetoras do cérebro”, enumera
Cícero Galli Coimbra, neurologista da Universidade Federal
de São Paulo. Ufa!
Para ser mais claro, esse ingrediente contribui
para o raciocínio ágil e uma memória de dar
inveja. Daí ele ser recomendável em qualquer fase
da vida — da gestação, quando a mãe o
ingere, até a maturidade. Ele ajuda a desenvolver o cérebro
do feto e, mais tarde, pode conservar os neurônios funcionando
a mil até mesmo na melhor idade.
Só fique de olho no preparo: a fritura costuma
bloquear os efeitos positivos dos ácidos ômega. “Uma
parcela deles se degrada quando é submetida a altíssimas
temperaturas”, afirma o cientista de alimentos Jesuí
Visentainer, da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná.
Acredite: tudo que é frito enfrenta um calor muito maior
do que aquilo que é assado, ensopado ou grelhado.
Mas nem só nas águas de ômega-3
nadam os peixes. “O interesse pelo alimento cresceu bastante
depois que foram comprovados seus altos teores de vitaminas A e
D, cálcio e fósforo”, ressalta a pesquisadora
Cristiane Neiva, do Instituto de Pesca, em Santos, no litoral paulista.
A vitamina D, que é uma baita aliada da cachola, merece parênteses:
embora a maior fonte da substância seja a luz solar, que estimula
sua síntese no corpo humano, é importante garantir
pitadas extras com a alimentação.
“De água doce ou salgada, os pescados
são sempre um produto do bem”, exalta Jesuí
Visentainer. “Todos eles são ricos em vitaminas, sais
minerais e ainda fornecem proteínas de excelente qualidade”,
acrescenta. Por isso a insistente mensagem das sábias avós
e dos especialistas para incluí-los no cardápio. Segundo
o médico Cícero Galli Coimbra, algumas pesquisas até
sugerem que não se coma outro tipo de carne. Ok, não
precisa exagerar. “Duas ou três vezes por semana já
é suficiente para tirar proveito das suas virtudes”,
diz Nelson Iucif, diretor da Associação Brasileira
de Nutrologia.
Aliás, só para puxar mais sardinha
para os peixes, já reparou que, a despeito de algumas querelas
por causa da forma de preparo, eles são aquele tipo de alimento
que agrada gregos e troianos, ou melhor, chefs e nutricionistas?
E lembre-se agora: contam com uma extensa lista de nutrientes fundamentais
para a massa cinzenta. Quem sai ganhando somos nós, degustadores
de tudo o que faz uma boa mesa.
Não perca esta
Incluir a cabeça do peixe nas receitas é um hábito
pouco comum no Brasil. “Trata-se de uma questão cultural”,
explica a nutricionista paulistana Andréa Esquivel, especialista
em gastronomia. “Em países orientais e até mesmo
na Europa, essa parte é muito usada para preparar excelentes
caldos”, exemplifica. Uma pena que por aqui seja diferente.
“Esse pedaço especificamente concentra grandes quantidades
de ferro, fósforo, cálcio e proteína”,
afirma o químico Jesuí Visentainer. Antes de jogá-lo
no lixo, portanto, reconsidere. Que tal um caldinho ou um bom pirão?
Entre um filé grelhado de frango, um de
carne vermelha e um de peixe, fique com o último. E não
só porque tem substâncias boas para o cérebro.
Quando exposto ao calor, é nele que se forma a menor quantidade
de substâncias maléficas aos neurônios. |